“Agora tu, agora és tu”

Ilhéstico
Casa Museu Frederico de Freitas e Porta 33, 2019
Curadoria de Miguel Von Hafe Pérez
Frederico de Freitas era irmão da minha avó materna. Nunca o conheci a não ser por fotografias ou por histórias familiares. Depois da sua morte, tendo deixado o seu legado à Região Autónoma da Madeira, toda a sua coleção foi organizada e inventariada de modo a ser fundado um museu, que seria instalado na casa onde viveu durante quase 40 anos. 

Durante todo este processo, dirigido por Paulo de Freitas, foram criadas as condições para contar a história das coisas da casa, sob o ponto de vista da História da Arte, do Património e da Museologia, não esquecendo a importância do papel do colecionador e ilustre personagem que foi Dr. Frederico de Freitas, advogado e colecionador madeirense. Não há na casa-museu nenhuma referência aos familiares de Frederico de Freitas, podemos apenas encontrar algumas referências à sua única filha, Maria Manuela, e à sua esposa, Marieta. Não é de espantar, visto que o foco que deveria ser dado à museografia do lugar era o da coleção de artes decorativas, sem ruídos desnecessários sob o ponto de vista museológico.

No entanto, devido ao vasto património e à quantidade de objetos, uns mais banais do que outros, que foram inventariados, à luz da ideia de utilidade pública, a exposição permanente foi pensada para poder sofrer alterações a partir da rotatividade de peças, e assim foram criadas condições para apresentar um museu novo à Madeira. Este museu estaria então preparado para apresentar aos madeirenses e forasteiros uma casa cheia de objetos valiosos, instalado num palácio que marca a paisagem do Funchal, não só pela sua arquitetura vernacular tão típica como pela grande árvore do jardim, que parece ser mais alta do que  a torre da igreja de São Pedro e pode ser vista a partir de diferentes pontos da cidade.



Tendo em conta que o Ilhéstico é um roteiro de arte contemporânea para a cidade do Funchal e que a casa-museu é um dos seus ex-libris, o projeto que se apresenta tem como base de trabalho um conjunto de histórias de infância contadas pelas minhas tias maternas: Ana Maria e Maria Manuela, as únicas sobrinhas diretas de Frederico de Freitas que ainda estão vivas. Estas memórias, contadas na primeira pessoa, aconteceram nos espaços, outrora privados, da Casa Museu Frederico de Freitas. Deste modo, à ideia de museu vivo, originalmente pensada para este espaço, é adicionada a componente familiar, das vivências e dos afetos. Por outro lado, as cadeiras, as mesas, os serviços de louça e os copos, por exemplo, que sobreviveram ao uso durante décadas, hoje em dia, podem apenas ser observados de longe. Não podem ser tocados, não podem correr o risco de partir.

O espólio existente, é muito mais do que uma coleção de objetos valiosos, todas as peças que aqui se encontram tiveram uma função afetiva e decorativa na casa e coabitaram com as pessoas que aqui viveram e que por cá passaram.

O trabalho que aqui se apresenta estabelece um diálogo com os lugares do museu e propõe um roteiro paralelo ao da exposição permanente. Este itinerário, que se inicia no alpendre da casa e termina na casinha de prazeres, compreende uma seleção de fotografias que ilustram as histórias contadas e que foram cedidas por Maria Manuela, uma outra seleção de fotografias complementares consideradas importantes para o diálogo, bem como uma instalação de som e outros objetos que reforçam um modo de viver e de estar na casa, nos anos 50. 

Este trabalho estende-se por praticamente todos os espaços do museu e termina na Porta 33 com uma instalação de fotografia, escultura e telhas da casa-museu.

#A "Entrem, vai valer a pena"
Pequenos de Maria Vanda:
António Cândido, Maria Manuela e Vandinha
Fotografia (P/B) digitalizada a cores
Alpendre

"Alpendre, onde com uma pose cuidada, fui fotografada junto com os meus irmãos na arca ainda existente.
Por aqui entravam as visitas importantes, por dar acesso às salas, onde obras de arte de grande valor eram exibidas e considerada zona de Alto Risco porque interdita a menores de 18 anos.
O nosso objetivo, após cuidado treino no muito pouco barulho que podíamos fazer, era na última das salas, sobre uma secretária, soprarmos uma só vez, dado o tempo escasso de que dispúnhamos, numa pequenina Gaita de prata. Alinhávamos e pacientemente esperávamos a nossa vez: agora tu, agora és tu.
Era o momento em que media a minha altura pela altura dos santos que estavam no chão.
Toda uma estrutura labiríntica, de novo estimulando a imaginação que levava à aventura segue-se desde múltiplas entradas, aos mais complexos espaços."

Maria Manuela
 Porch 

"Porch, where with a careful pose I was photographed with my brothers in the still existing ark that gave me the great joy of being a target of a camera. It was where important visits were welcomed in, as it gave access to the rooms, where works of art of great value were exhibited and considered a High Risk area because under-18s were not allowed in. Our goal, after careful training in order to make very little noise what we could do was to blow into a tiny Silver Harmonica in the last room on a desk. Just ONCE, given the scarce time we had: YOU NOW, YOUR TURN. It was the moment when I measured my height by the height of the saints on the floor. A whole labyrinthic structure, again stimulating the imagination that led to adventure. Multiple entries and complex areas."
 
SALÃO 
#1 Agora tu, agora és tu
(Sopro de harmónica)
Instalação de som, 5'29'' (excerto)

Warning: A non-numeric value encountered in /home/cb24u9ke/public_html/wp-content/themes/bateaux/includes/bateaux-template.php on line 881
#2 Pequenos de Maria Vanda
Ana Maria, Vandinha, António Cândido, Maria Manuela Fotografia (Sépia) digitalizada a cores
#3 Sobrinhos e filha de Frederico de Freitas
Maria Teresa; Frederico Manuel, Paulo Cândido, Maria Mercedes, João Manuel, Lise Mercedes, Maria de Lurdes, Olga Zita, Maria Manuela (Necas) e Maria Amélia Fotografia (P/B) digitalizada a cores
Retrato de Maria Manuela de Freitas
Rafaello Busoni (Berlim, 1900-Nova Iorque?, 1962) Óleo sobre platex Portugal, Madeira, 1935
#4 Maria Manuela (Necas) com cão
(filha de Frederico de Freitas) Madeira, 1921-1938
Fotografia (P/B) digitalizada a cores

SALA AMARELA
#8 “Portão por onde saí para nascer"
Pequenos de Maria Vanda:
Maria Manuela, António Cândido e Vandinha
Fotografia (P/B) digitalizada a cores
#5 Alpendre
Pequenos de Maria Vanda:
Maria Manuela e Vandinha
Fotografia (P/B) digitalizada a cores.
Calçada de Santa Clara, Nº7

"Portão por onde saí para nascer.
Quando com 8 anos – Mãe, conta-me a história do meu nascimento! - Fui à Calçada almoçar e depois de o ter feito, senti uma impressão, tendo o Tio vindo-me pôr a casa. Por volta das 4 horas da tarde, nasceste. Anos depois e porque associando o som do TANTÃ, que habitualmente tocava meia hora antes da refeição, ao pulsar do Universo, sem que desse conta, na minha mente de agora, fora essa a energia que me fez despertar para a vida, dando início à respetiva caminhada pelo mundo. Gosto de pensar assim! Era hábito os Barbeitos almoçarem à Sexta-Feira na Calçada e ao consultar o Calendário perpétuo, descobri que nasci numa Sexta. "  
Calçada de Santa Clara, Nr. 7

"Gate where I left to be born.
When I was 8 – “Mother, tell me the story of my birth!” "I went to the Santa Clara Road for lunch, and afterwards I felt something, and Uncle came to take me home. Around 4 pm, you were born." Years later, and because the sound of TANTÃ, that usually played half an hour before the meal, was associated with the pulse of the Universe, I didn’t realize, that’s what I think now, it was the energy that woke me to life, starting my Walk in the world. I like to think like that! The Barbeitos used to have lunch on Friday in Santa Clara Road, and checking the perpetual calendar I realized that I was born on a Friday. "


Maria Manuela

#6 Frederico de Freitas
Fotografia (P/B) digitalizada a cores
#7 A História do Bebé
Album de bebé, livro de capa dura, aberto numa página vazia de retratos.
Cedido por empréstimo por Maria Manuela de Freitas Barbeito Curado

ACESSO AO QUARTO DE DORMIR
#9 Avô Cândido
Fotografia (P/B) digitalizada a cores
#10 Tio Frederico e Tia Marieta à Janela
Fotografia (P/B) digitalizada a cores

QUARTO DE DORMIR
[QUARTO SIMBÓLICO DA AVÓ ADELAIDE]
#13 Avó Adelaide
Mãe de Frederico de Freitas
Fotografia (P/B) digitalizada a cores
#12 Armário dos brinquedos
dos pequenos de Maria Vanda 
José Leite e Vandinha
Fotografia (P/B) digitalizada a cores
Quarto de Dormir 

"O Quarto da avó Adelaide era a 1ª Porta à direita, ao cimo da escada que descíamos de cabeça para baixo, com as mãos onde habitualmente se colocam os pés e que ao subirmos, íamos de cabeça erguida, com os pés bem assentes no chão e a todo o pano. Aí, os Pequenos de Maria Vanda eram os prediletos porque eram filhos daquela que durante longos anos fora a mais pequenina, facto que levou o Avô Cândido, seu Pai, a chamá-la de “o brindeiro da minha amassadura”. Para além de guloseimas desviadas só para nós, éramos educados a ter boas maneiras.
Lavados e asseados quando vínhamos do colégio, com a Avó sempre a repetir, estás a cheirar a Menina de escola!
Para além da arte das boas maneiras aprendemos a arte de se apresentar com um bom porte, bem como a bordar, tricotar e muito mais.
Um dos grandes atrativos era o Armário dos brinquedos dos Pequenos de Maria Vanda, onde eu possuía um fogão, muito bem idealizado com panelinhas de alumínio e uma despensa recheada de alimentos em frascos outrora utilizados na saúde, para medicamentos.
Um belíssimo serviço de jantar de bonecas, pertença da Mana Superiora, um carro de bombeiros do meu Irmão e peluches da Vandinha, a mais nova. O jogo do monopólio, várias bonecas, cartões que permitiam construções e um ou outro livro e muito mais de que me não lembro.
Por instinto, a nossa imaginação levava-nos a ver, nas portas do armário, uma passagem secreta para espaço não identificado. Era um mistério só desvendado no século vinte e um.
Uma passagem secreta existira, dando acesso a um espaço alargado e à escada que conduzia à torre."


BEDROOM

"The grandma Adelaide's room was the first door on the right, at the top of the stairs we used to slide with belly facing down, with our hands where feet are usually placed, and when we went up, we would go with our heads up and our feet on the floor. Then Maria Vanda's Little Ones were the favourite because they were the children of the one who had been the smallest for many years, which led her grandfather Cândido, her Father, to call her “the small bread of my baking”.
Besides getting the candies, we were educated to have good manners. Washed and cleaned when we came home from school, with Grandma always repeating, you smell like a Schoolgirl!
In addition to the art of having good manners we also learned the art of posing well, as well as how to embroider, knit and many more.
One of the great attractions was Maria Vanda's children toy Cabinet, where I had a stove, very well designed, with aluminum frying pans and a paintry stuffed with food in glasses that were used to store medicines.
A beautiful doll dinner service, owned by the “Sister Superior”, a fireman truck from my brother, and cuddly toys from Vandinha, the youngest. The monopoly game, lots of dolls, building permits and one or two books, and more that I don't remember. Instinctively, our imagination led us to see, in the closet doors, a secret passage to and unidentified space. It was a mystery solved only in the twenty-first century.

A secret passage had existed, giving access to a wide space and to the staircase that led to the tower."


Maria Manuela
#11 Pequenos de Maria Vanda na Janela do quarto da avó Adelaide
Fotografia (P/B colorida à mão) digitalizada a cores
Missão Telhado

"Passeios sobre as telhas, num telhado de grandes dimensões, com uma vista panorâmica e com perspectivas de voo, com aterragem no quintal do Museu “dos peixes”, de acesso facilitado por uma escada vertical, de ferro, na parede exterior a caminho do jardim de Baixo e de difícil reconhecimento por parte da vigilância, quando utilizada.
Outro dos acessos, a escada que conduzia à Torre com 4 maravilhosas janelas por onde nos infiltrávamos ou dávamos a possibilidade de outros escaparem, tendo-nos saído o “tiro pela culatra”, quando a Tia Marieta que ouvira um ruído estranho, perseguiu a Vandinha, obrigando-a a dizer, depois da janela aberta “vocês que venham” e quem apareceu foi a Tia. “Virou-se o Feitiço contra o Feiticeiro”. Sem sabermos, passinhos denunciadores ouviam-se claramente, quando debaixo do teto do Quarto da Avó Adelaide.
Não posso deixar de reconhecer que fotografias tiradas na janela do quarto da Avó Adelaide, alimentavam a nossa imaginação e desafiavam qualquer aventureiro ou aventureira."



Roof Mission

"Walks over roof tiles on a large roof with a panoramic view and flight prospects, and landing in the backyard of the “fish” Museum, whose access was facilitated by a vertical iron staircase on the outer wall in the way to the Lower garden, which made surveillance difficult.
Another Access was the staircase that led to the Tower with 4 wonderful windows through which we infiltrated or gave others the possibility of escaping, but the plan backfired when Aunt Marieta, who heard a strange noise, chased Vandinha, forcing her to say, after opening the window, "you can come", but the joke was on us because who turned out was Aunt.
We didn’t know this but footsteps could clearly be heard under the roof of Grandma Adelaide's Room.
I can't help but admit that photographs taken in Grandma Adelaide's bedroom window fueled our imagination and challenged any adventurer."

Maria Manuela

JARDIM DE INVERNO
#14 Maria Vanda e Maria Amélia
Irmã e sobrinha mais velha de Frederico de Freitas
Fotografia (P/B) digitalizada a cores
#15 Maria Vanda e Olga Letícia
Irmãs de Frederico de Freitas
Fotografia (P/B) digitalizada a cores
SALA DE JOGO [QUARTO DE PASSAGEM]
#18 Vandinha e Paulo Cândido
Fotografia (P/B colorida à mão) digitalizada a cores
#17 Pequenos de Maria Vanda
António Cândido, Ana Maria,
Vandinha e Maria Manuela
Fotografia (P/B colorida à mão) digitalizada a cores
Sala de Jogo

"Era o quarto de passagem com cadeirões de forma quadrada que se encontravam em volta de uma mesa e onde disputávamos lugar, nos braços da que era destinada à tia Marieta, a dona da casa. com o telefone numa mesa, ao canto da sala, com vistas para a escada, onde nos divertíamos a descer de cabeça para baixo com o peito nos degraus e, eis se não quando se ouviu um grito aflitivo “arrarrarra” para a pessoa que se encontrava do outro lado da linha.
Com passagem para o jardim de inverno com telhado de vidro e sala de embutidos e para a copa."



Game Room

"Used to be the passage room with square-shaped armchairs that sat around a table and where we fought for seat, in the arms of the armchair of Aunt Marieta, the owner of the house. With the telephone on a table in the corner of the room, overlooking the stairs where we had fun going upside down with our chests on the steps and, suddenly, a distressing shout calling the person on the other end of the line. With a passage to the winter garden with glass roof and embedded furniture room and for scullery."


Maria Manuela

CASA DE JANTAR [SALÃO NOBRE]
#22 Sem Título
Instalação de planos de estampagem de bordado Madeira
Material de arquivo cedido por Martinho Mendes
Papel vegetal
#24 Prato com esbeiçamento deslocado
Modelo usado para os desenhos
Cerâmica pintada à mão
#21 Elefante na Sala
Instalação
Cartão prensado suspenso na janela
Sala do Chá e Casa de Jantar

"Era a sala de jantar dos grandes e de todos os dias
Quando o momento e a função exigiam, passávamos à sala dos Grandes ocupando os lugares à mesa, e cabendo interpretar ao aí sentado, não só a postura como o tom e discurso do ausente. Sem olhares suspeitos, dávamos início à representação, tendo eu um dia completado a cena, com o recolher habitual de migalhas espalhadas na toalha, com o indicador, costume de uma das tias. Era muito divertido e imaginativo, quanto altamente perigoso pois havia a possibilidade de sermos descobertos, não fosse um adulto levantar-se inesperadamente da mesa monumental da Sala Nobre(*), onde convidados e os nossos maiores trocavam ideias e pensamentos. Quando com 18 anos, ao assumir o número 15 à mesa, aprendi muito de cultura e humanidade."



Tea Room and Dining Room

"Used to be the great and every day dining room When the moment and the function demanded, we would go to the dining room of the Grown Ups, taking the seats at the table, and interpreting while sitting there not only the posture but also the tone and speech of the absent person. Without suspicious looks, we began the performance, one day I completed the scene, with the usual collection of crumbs scattered on the towel, with the index finger, a habit of one of the aunts. It was very entertaining and imaginative, but also highly dangerous as there was a possibility that we could be spotted, if an adult happened do come in unexpectedly from the monumental table in the Noble Room, where guests and our seniors exchanged ideas and thoughts.
When I was 18 I took number 15 at the table and learned a lot on Culture and Humanity." 


Maria Manuela

SALA DO [SALA DE JANTAR]
#19 Sem Título
Instalação de planos de estampagem de bordado Madeira Material de arquivo cedido por Martinho Mendes Papel vegetal
#20 Sem Título
Desenho a grafite e lápis de cor sobre papel
#19 Sem Título (pormenor)
Instalação de planos de estampagem de bordado Madeira
Material de arquivo cedido por Martinho Mendes
Papel vegetal



QUARTO DAS CANECAS [COPA]
#27 Toalha de mesa
Instalação
Cedido por empréstimo por Maria Manuela de Freitas Barbeito Curado
#26 Querido Frederico
Fotografia a cores digitalizada
Frente & Verso
Quarto das Canecas 

"Era a copa, com as paredes revestidas de canecas, a destinada às nossas refeições, onde brincadeiras do tipo, meter uma banana inteira na boca e sem nos rirmos da figura dos outros. engolirmos o alimento. Resultado - banana saindo pela boca, sem destino.
Porque a mesa era redonda e rodava mesmo, servíamo-nos consoante as idades, cabendo ao elemento mais novo por vezes 3 ervilhas - Processo hierárquico, seguindo-se o Processo rotativo, cada um come uma colher de sopa no prato em frente, roda a mesa e assim sucessivamente.
A escada que dava acesso à cave, que muitas vezes serviu de esconderijo, permitia-nos conviver com a humidade típica da despensa que era, e dos produtos a granel."



Room OF Mugs

"Was the scullery with the mug-lined walls for our meals, where pranks like putting a whole banana in your mouth and without laughing at each other swallow it. Result- banana coming out of the mouth, in an uncontrolled way.
Because the table was round and even rotated, we helped ourselves depending on the age, and the youngest element could sometimes take three peas - Hierarchical process, followed by the Rotating Process, each one eating a spoon of soup from the plate in front, rotates the table and so on.
The stairway leading to the basement, which was often used as a hiding place, allowed us to live with the typical humidity of the pantry, and the bulk products." 



Maria Manuela

COZINHA
#28 Bolachas de Josefa
Bolachas de manteiga e Fotografia da receita a cores
#29 Sem Título
Desenho sobre papel
Cozinha

"Munida de um fogão a lenha, de medidas gigantescas, onde as mais gostosas iguarias eram elaboradas e faziam as delícias de meia cidade.
Para nós crianças, apenas desejávamos não sermos detetados perto da mesa central, onde a taça das azeitonas era depositada e à mão de semear. As bolachas de Josefa eram mais difíceis de chegar porque estavam dentro do armário. Colocávamos o nosso destino nas mãos da sorte e aí, numa tentativa de nos tornarmos invisíveis aos olhos do pessoal, atacávamos rapidamente, porque o desejo era tanto. Aí também aprendi a deixar sempre, nem que fosse uma cenourinha para o dia seguinte – ensinamento dado pela Margarida, a cozinheira, figura imprescindível em todo este processo.
Outro dos alvos, de acesso difícil, eram as bolachas Josefa, que se desfaziam na boca." 



Kitchen 

"Armed with a gigantic wood-burning stove, it was where the most delicious delicacies were elaborated and they made the delights of half of the town.
For us children, we just wished we were not detected near the central table, where the bowl of olives was set and ready to be picked. Josefa's cookies were harder to reach because they were inside the cupboard. We put our destiny in the hands of chance, and then, in an attempt to make ourselves invisible to the eyes of the people, we attacked quickly, because the desire was so intense. Then I also learned to always leave something, even if it was a carrot, for the next day - wisdom given by Margarida, the cook, an indispensable figure in this whole process.
Another difficult target to reach was Josefa’s crackers, which crumbled in the mouth."




Maria Manuela
#31 Pequenos de Maria Vanda:
Vandinha, Ana Maria e Maria Manuela

Fotografia (P/B colorida à mão) digitalizada a cores
Arredores destinados a trabalhos menos nobres, para os lados da cozinha 

"Quarto de engomar e lavandaria e cozinha antiga.
Quarto de costura, com máquina Singer e uma GIGA gigante de vimes, óptimo esconderijo pois cabíamos uns poucos lá dentro, mas de muito mau cheiro. Uma vez aí dentro metida procurava respirar o mínimo possível, mantendo a situação, apenas para continuar a merecer o respeito e a confiança do Grupo.
Pequena estufa onde plantas exóticas cresciam e um espaço coberto com folhas, tornando o Sol coalhado, necessário às orquídeas."     
 
Surroundings for lesser works, kitchen side 

"Ironing room and laundry and the old kitchen
Sewing room with Singer machine and a giant wicker BASKET, great hideout because a few of us could hide inside, but it smelled very bad.
Once inside, I tried to breathe as little as possible, just to continue to earn the Group's respect and trust.
SMALL GREENHOUSE where exotic plants grew and a SPACE covered with leaves, making the sun “curdled” as necessary for orchids."


Maria Manuela

BIBLIOTECA [GABINETE DO TIO]
#33 Frederico e amigos
Fotografia (P/B) digitalizada a cores
Biblioteca

"Gabinete do tio onde interiormente se lia proibida a entrada a estranhos. Quando me atrevi a abrir, sem bater à porta, aprendi a reger orquestras com perfeição pois encontrava o TIO completamente absorvido pela música, como se fosse o Próprio Maestro. Se experimentarem irão ver quão edificante e bom é."


Library 

"Uncle's office where, in our own mind, we could read “strangers are not allowed”. When I dared, without knocking on the door, I learned to conduct orchestras perfectly because I found Uncle completely absorbed in the music, as if he was the Maestro Himself. If you try it you will see how uplifting and good it is."


Maria Manuela

CASINHA DE PRAZERES
Casinha de Prazer

"Aí, as mais intrigantes e fantasmagóricas Histórias de Almas do outro Mundo eram contadas e cheios de pavor escutávamos os mais velhos e imaginativos, tendo como reflexo noites de insónia e péssimo dormir que obrigavam a minha Mãe a sair da sua cama até eu sossegar.
Em dias mais calmos, tornávamos a Casinha de Prazer uma bela moradia para brincar às Bonecas, assumindo ser Pais e Mães.

Nos arredores da casinha, divertíamo-nos atirando pedrinhas para a janela aberta do edifício em frente, destinado às Vicentinas que intrigadas olhavam sempre para baixo, julgando virem da Rua e nunca desconfiando das crianças do Palácio.
Outra das distrações era uma moeda furada, amarrada numa ponta de linha quase invisível que arrastávamos no chão, levando quem passava a pensar que perdera dinheiro.
Ficava cheia de remorsos quando colaborava nestas pequenas maldades." 



Pleasures Hut*

"There the most intriguing and ghostly Stories of Souls from the Otherworld were told and filled with dread we listened to the oldest and most imaginative people,which led to sleepless nights and lousy sleep that forced my Mother out of her bed until I settled down.
On quieter days, we made Casinha de Prazer* (Pleasure Hut) a beautiful home for dolls, playing Fathers and Mothers.

In the hut surroundings, we had fun throwing pebbles at the open window of the building opposite, aimed at the puzzling Vincentinas who always looked down, thinking the stones came from the Street and never suspecting about the Palace children. Another distraction was a pierced coin tied to an almost invisible end of a thread that we dragged along the floor, making people think they had lost the money. I felt remorse when I collaborated in these little evil pranks." 


*Small and beautiful architectural structures located at one end of the gardens of the villas of Funchal, overlooking the street, always strategically placed to enjoy the landscape, with the sea in the background. They are leisure areas that are part of the magnificent gardens. These small 


Maria Manuela
MEMORIAS DA CALÇADA

"A memória mais profunda que tenho da casa do tio (Dr. Frederico de Freitas) é do quarto da minha avó, sua mãe. Era um quarto onde cabia toda a gente. Estava preparado para que ela se sentisse bem, devido à sua frágil saúde nunca de lá saia, dai que nos reuníssemos à volta dela.
Lembro-me do armário dos brinquedos, ao fundo, de onde saiam os mais diversos entretenimentos para manter distraída a malta mais nova. O telhado, ao nível das janelas era atração proibida.
A pequena salinha onde ela recebia todos, que ficava a um cantinho do quarto, era, para mim, muito gostoso.
Lembro-me que, todos os dias, antes de ir almoçar, o tio subia as escadas para se encontrar com a sua mãe e saber do seu estado de saúde. O carinho com que pegava na mão dela e lhe via o pulso fascinava-me. Muito quieta e atenta observava religiosamente a situação e procurava repeti-la nas bonecas.
Éramos muitos netos e bisnetos, pode dizer-se de duas épocas. Eu era a mais nova dos mais velhos e a mais velha dos mais novos, frequentemente responsabilizada pelas traquinices dos juvenis.
Fazia muita companhia a minha avó quando lá estava, que era quase todos os dias. Lembro-me dos grandes jantares. Era muita gente, familiares e amigos distribuídos por duas mesas em divisões separadas. A grande mesa dos adultos e ao lado a mesa pequena dos mais jovens. Muitas vezes fui para a mesa dos grandes fazer número. Não gostava muito, pois tinha de me portar muito bem: não falar e ter em conta todos os meus gestos - perdia assim uma certa liberdade.
Éramos sempre recebidos com muito carinho pelos tios. A calçada, como todos chamávamos à casa, era um refugio para a família. Uma casa muito grande cheia de recônditos misteriosos…
Nos salões, aonde era proibido os pequenos entrarem, corríamos à socapa para tocar numa gaita minúscula que estava no meio de muitas outras coisas em cima duma grande arca que havia ao fundo. Dado o toque, voltávamos a correr, não fossemos apanhados.
Já mais crescida fazia companhia a minha avó que me ensinava renda e malha, o que me ocupava agradavelmente as horas lá passadas.
A tia Marieta governava a casa com mão firme , orientando tudo e conseguindo uma gestão impecável. Na mesa do chá havia todos os dias lugar para mais um. A canasta e o bridge à noite eram motivo de atração para os muitos amigos e familiares que os meus tios recebiam.
Lembro-me que num dia de anos a tia disse gostar de canecas. Acharam graça e de hora a hora ela recebia uma de presente. Creio ter sido assim que começou a grande coleção que hoje podemos apreciar.
Cresci assim, numa casa única que é hoje, merecidamente, o resultado do espírito colecionador de um homem, que foi ele também, único.
Faz e fará sempre parte da minha vida, a maneira excecional como o tio e a tia contribuíram para a educação de todos nós, os sobrinhos que deambularam em sua casa.

Uma saudade sempre grande e boa da Ana."

Lisboa, 31 de agosto de 2019

Ana Maria

CALÇADA MEMORIES

"The deepest memory I have of uncle's house (Dr. Frederico de Freitas) is from my grandmother's room, his mother. It was a room where you could fit everyone. It was prepared to make her grandmother feel comfortable, because of her fragile health. She never left the room, so we would gather around her. I remember the toy cabinet at the background, where you could find all sorts of toys to keep the younger ones entertained. The roof, at window level, was a forbidden attraction. The small sitting room where she received everybody, which was in a little corner of her bedroom, was, to me, very cosy. I remember that every day before having lunch, my uncle would go upstairs to meet his mother and find out about her health. The affection with which he took her hand and checked her pulse fascinated me. I religiously observed the situation very quiet and attentive and tried to repeat it on the dolls. We were many grandchildren and great-grandchildren. Two generations, we can say. I was the youngest of the oldest and the oldest of the youngest, often blamed for the pranks of the juveniles. I often kept my grandmother company when I was there, which was almost every day. I remember the great dinners. There were a lot of people, family and friends spread over two tables in separate rooms. The big table for the adults and next to it the small table for the younger ones. I often sat at the big table to make up the numbers. I didn't like it very much, because I had to behave very well: not to talk and take into account all my gestures – this way I would lose some freedom. We were always welcomed with great affection by our aunts and uncles. The Calçada, as we all called the house, was a refuge for the family. A very large house full of recondite mysteries… In the halls, where the little ones were forbidden to enter, we would rush to play a tiny harmonica that was among many other things, on top of a large chest at the back. We would play it and quickly run away, in order not to be caught. When I was older, I would keep company to my grandmother, who taught me lace and knitting, which pleasantly occupied the time I spent there. Aunt Marieta ruled the house with an iron fist, guiding everything and achieving impeccable management. There was always room for one more person at the tea table. The canasta and bridge at night were a source of attraction to the many friends and relatives my uncles and aunts received at their home. I remember that on one of her birthdays my aunt said she liked mugs. Everybody found it funny and every hour she received one as a gift. I believe this was how the great collection began, which we can still enjoy contemplating today. I grew up like this, in a unique house that is today, deservedly, the result of the collecting spirit of a man, who was himself also unique. The exceptional way in which uncle and aunt contributed to the education of all of us, the nephews and nieces who roamed their home, is and will always be part of my life.

An always big and good «saudade» from Ana. "