O Recriadeiro
Linha de Partida, 2009
Curadoria de Alexandre Melo
O Recriadeiro, 2009.
Instalação.
Redes metálicas, bebedouros de aço inox, PVC, platex, metal, som.
Medidas variáveis
Metáforas artísticas

Ricardo Barbeito nasceu no Funchal em 1979. Cidade onde estudou e onde desenvolveu os seus primeiros projectos. Desde a sua primeira exposição (Candy Shop em 2006) que se pode detectar nos seus trabalhos dois aspectos principais: primeiro, o artista transforma sempre os espaços em que trabalha não através da colocação de peças, mas da integração das qualidades espaciais como matéria de trabalho; e, segundo, é sempre o espectador o elemento que activa as suas obras. Sem este as suas instalações permanecem mortas, porque são dispositivos interactivos que exigem a acção do corpo e necessitam do impulso (ou, se se preferir, a energia) do espectador para poder existir. “O reCriadeiro” que Barbeito apresenta em “Linha de partida” deve ser visto em conjunto com a exposição “do Ovo ao voo” no Museu de Arte contemporânea do Funchal. Ambas as instalações inserem-se numa pesquisa mais vasta sobre a origem (da vida e do próprio artista: é impossível ficar imune ao facto do artista ser de uma família proprietária de um aviário). Formalmente, trata-se de “recriar” o ambiente de um aviário dando a sensação de se testemunhar o momento em que a vida irrompe através de uma superfície. É neste contexto que o ovo (peça central da construção de Barbeito e à qual todos os elementos presentes fazem referência) deve ser inserido, não só devido à sua forma originária e potenciadora de vida, mas igualmente devido ao poder metafórico que todos os seus elementos traduzem. Sair do ovo ou, o que é o mesmo, romper a casca implica a entrada numa dimensão da experiência que corresponde a uma experiência de desprotecção, de abertura, de dor. Uma dor que começa por se poder localizar no reconhecimento (que é um confronto) do diferente, da ausência de semelhança. A criação é isso mesmo: primeiro toma contacto directo com a existência do diferente, do não semelhante; depois harmoniza e torna unitária toda a diferença e pluralidade. Peter Sloterdijk na sua fenomenologia das esferas afirma: “aquilo que tem o nome de esfera seria, então, numa acepção primeira e provisória, um globo que reúne duas metades, polarizado e variado, reunido de uma maneira praticamente íntima, um globo subjectivo e capaz de sentir – um espaço comum e bi-unitário do vivido e da experiência.” Ainda que Ricardo Barbeito não fale de esferas, o seu ‘recriadeiro’ tem em vista a forma oval que aqui se faz equivaler à forma esférica, porque o ovo é essa junção de elementos contrários, significa a intimidade e, fundamentalmente, o trazer à vida, o fazer surgir. Fora dessa forma (casca e casa), que é lugar de abrigo, reunião e identidade, a diferença surge como agressão e obriga o ser a um êxodo relativamente a si próprio e em direcção ao acontecimento mundano, à história, no qual tudo fica sujeito ao movimento perpétuo da geração e corrupção. Todos os elementos que o artista dispõe no espaço expositivo são peças essenciais na construção desta espécie de metáfora dos princípios unificadores da arte e da vida. E, fundamentalmente, mostra de que forma o gesto criativo das artes não é diferente, nem isolado, do gesto divino da criação ou dos movimentos dinâmicos da natureza.



“O reCriadeiro” que Barbeito apresenta em “Linha de partida” deve ser visto em conjunto com a exposição “do Ovo ao voo” no Museu de Arte contemporânea do Funchal. Ambas as instalações inserem-se numa pesquisa mais vasta sobre a origem (da vida e do próprio artista: é impossível ficar imune ao facto do artista ser de uma família proprietária de um aviário). Formalmente, trata-se de “recriar” o ambiente de um aviário dando a sensação de se testemunhar o momento em que a vida irrompe através de uma superfície. É neste contexto que o ovo (peça central da construção de Barbeito e à qual todos os elementos presentes fazem referência) deve ser inserido, não só devido à sua forma originária e potenciadora de vida, mas igualmente devido ao poder metafórico que todos os seus elementos traduzem. Sair do ovo ou, o que é o mesmo, romper a casca implica a entrada numa dimensão da experiência que corresponde a uma experiência de desprotecção, de abertura, de dor. Uma dor que começa por se poder localizar no reconhecimento (que é um confronto) do diferente, da ausência de semelhança. A criação é isso mesmo: primeiro toma contacto directo com a existência do diferente, do não semelhante; depois harmoniza e torna unitária toda a diferença e pluralidade. Peter Sloterdijk na sua fenomenologia das esferas afirma: “aquilo que tem o nome de esfera seria, então, numa acepção primeira e provisória, um globo que reúne duas metades, polarizado e variado, reunido de uma maneira praticamente íntima, um globo subjectivo e capaz de sentir – um espaço comum e bi-unitário do vivido e da experiência.” Ainda que Ricardo Barbeito não fale de esferas, o seu ‘recriadeiro’ tem em vista a forma oval que aqui se faz equivaler à forma esférica, porque o ovo é essa junção de elementos contrários, significa a intimidade e, fundamentalmente, o trazer à vida, o fazer surgir. Fora dessa forma (casca e casa), que é lugar de abrigo, reunião e identidade, a diferença surge como agressão e obriga o ser a um êxodo relativamente a si próprio e em direcção ao acontecimento mundano, à história, no qual tudo fica sujeito ao movimento perpétuo da geração e corrupção. Todos os elementos que o artista dispõe no espaço expositivo são peças essenciais na construção desta espécie de metáfora dos princípios unificadores da arte e da vida. E, fundamentalmente, mostra de que forma o gesto criativo das artes não é diferente, nem isolado, do gesto divino da criação ou dos movimentos dinâmicos da natureza.

Nuno Crespo, 2009