Ophiussa Ex Machina

Thirdbase, Lisboa 2020
Ophiussa Ex Machina
Instalação 
Máquina de tabaco + kits de passeio
Medidas Variáveis
Ofiússa ex machina é um projeto que se baseia num artigo do diário de Lisboa dos anos 20, num livro de itinerários sobre a calçada portuguesa e na lenda da fundação da cidade e das sete colinas. É um conjunto de trabalhos que propõe imaginar a dinâmica que existe entre o que um território representa para cada um de nós, neste caso Lisboa, e o que esse território pode ser ou encerrar em si mesmo. Ofiússa evoca o imaginário individual e coletivo da cidade, atendendo às relações que se estabelecem entre os objetos, as pessoas e os lugares.
Sem Título (Pele I)
Molde escultórico de pedras da calçada.
Papel vegetal, adesivo e cola de encadernação 
190 cm x 220  cm x 8 cm  (aprox.)
Sem Título (Chagariz de Campolide)
Molde escultórico feito a partir de decalque com papel e fita cola 
61 cm x 45  cm x 11 cm  (aprox.)

Sem Título (Pedra / Itinerário 1)
Desenho a grafite sobre papel +
desenho a caneta sobre papel vegetal.
35 cm x 25cm + 42 cm x 29,7 cm
Ensaio sobre a pedra 1 (Desenho ampliado) Transferência de pormenores de desenho a grafite e de impurezas da superfície da pedra com fita-cola sobre cartão.
Medidas variáveis

Sem Título (Bebedouro Largo da Boa Hora, Chiado)

Molde escultórico feito a partir de decalque com papel e fita cola 
50 cm x 33 cm x 15 cm (aprox.).

Sem Título (Bebedouro Largo da Boa Hora, Chiado)

Molde escultórico feito a partir de decalque com papel e fita cola 
Medidas variáveis.
Sem Título ( Pele II)
Molde escultórico de pedras da calçada.
Papel vegetal, adesivo e cola de encadernação.
145 cm x 195 cm x 10 cm (aprox.)
Sem Título (Pedra / Itinerário 3)
Desenho a grafite sobre papel + desenho a caneta sobre papel vegetal. 
35 cm x 25cm + 42 cm x 29,7 cm
Sem Título (Pedra / Itinerário 2)
Desenho a grafite sobre papel + desenho a caneta sobre papel vegetal.
35 cm x 25cm + 42 cm x 29,7 cm

Ensaio sobre a pedra 3 (Desenho ampliado)
Acrílico sobre cartão + transferência de pormenores de desenho a grafite e impurezas da superfície da pedra transferidos com fita-cola. Medidas variáveis.
Medidas variáveis.


Sem Título (Pedra 1: desenho ampliado)Ensaio de desenho a grafite transferido com fita-cola sobre cartão.
Medidas variáveis.


Sem Título (Chafariz Largo do Carmo)
Molde escultórico feito a partir de decalque com papel e fita cola 
Medidas aproximadas: 750mm x 55 mm x 15 mm; .
Ensaio sobre a pedra 2 (Desenho ampliado)
Acrílico sobre cartão + transferência de pormenores de desenho a grafite transferidos com fita-cola.
Medidas variáveis.


Sem Título (Chafariz Largo do Carmo)
Molde escultórico feito a partir de decalque com papel e fita cola 
Medidas aproximadas: 750mm x 55 mm x 15 mm; .
Sem Título (Mapa)
Desenho a marcador permanente e acrílico sobre cartão.
Medidas variáveis.
Sem Título (Pele III)
Molde escultórico de pedras da calçada.
Papel vegetal, adesivo e cola de encadernação 
190 cm x 220  cm x 8 cm  (aprox.)
Ophiussa ex machina é um projeto que se baseia num artigo do diário de Lisboa dos anos 20, num livro sobre a calçada portuguesa, e na lenda da fundação da cidade e das sete colinas.

A Lenda da Fundação de Lisboa, incluída n’As Lendas da Nossa Terra, de Gentil Marques, conta a história da chegada de Ulisses ao lugar onde hoje se encontra edificada a cidade de Lisboa. Conta a lenda que este território era uma terra de serpentes, impenetrável e inóspita para forasteiros inesperados, governada por um ser mitológico meio mulher meio serpente. Ofiúsa era como se chamava, e como era conhecido o território português na antiguidade grega. Quando o navegador chegou e quis assentar arraiais deparou-se com a necessidade de persuadir a rainha a aceitar a sua proposta, prometendo prosperidade e florescimento eternos. A rainha deixou-se seduzir por Ulisses e com ele fundou Ulisseia, a cidade mais bela do mundo. Passado algum tempo o navegador decide zarpar em segredo, e sentenciou a rainha com o maior dos seus desgostos, quando se apercebe que Ulisses fugiu. Motivada pela traição, tenta alcançá-lo sem sucesso e dentro de todo aquele desespero, fúria e mágoa, deixou atrás de si o rasto do movimento contorcido e serpenteante do seu corpo. A rainha das serpentes, exausta e abandonada, acaba por sucumbir ao desgosto, deixando para sempre a sua marca na paisagem de Lisboa: as sete colinas.
Sempre que passeamos pela cidade estamos continuamente a encontrar pormenores, são detalhes que nos permitem imaginar a dinâmica que existe entre o que Lisboa pode representar e o que realmente é, ou encerra em si mesma, independentemente de sermos habitantes locais ou estrangeiros.

Pornografia era o título do artigo que se podia ler na primeira página do Diário de Lisboa de 30 de abril de 1921. Joaquim Manso (diretor, proprietário e editor do jornal) apresenta-nos uma série de reflexões, opiniões e juízos sobre o quotidiano moderno da cidade e o estado da literatura do seu tempo. O escritor e ensaísta, recorrendo a metáforas e a uma linguagem literária altamente sofisticada, revela-nos uma Lisboa “que se sensualiza com tal ardor de febre que até parece que as pedras da calçada faíscam lume.”

No livro Empedrados Artísticos de Lisboa, de Eduardo Martins Bairrada, podemos encontrar uma série de itinerários sobre a calçada portuguesa na cidade. A publicação contextualiza e apresenta algumas notas sobre a história da calçada, bem como o levantamento de desenhos e estruturas indispensáveis para a criação dos motivos que compõem estes “arrendados de via pública”. “Será que existiu ou existe ainda hoje indiferença do lisboeta pelos atapetados das suas ruas e praças (...)?” é a pergunta que se destaca no início do livro.
É impossível ficar indiferente à diversidade dos desenhos e padrões que podemos encontrar na calçada, quando olhamos o chão que pisamos em Lisboa. Por outro lado, quando passeamos pelas ruas da cidade é muito comum encontrarmos pedras soltas, partes de calçada que se desprendem e deformações da superfície, elevações ou rebaixamentos, que derivam das cedências do pavimento, causadas pelo crescimento das raízes das árvores ou por outros fenómenos naturais ou imaginários. Num jogo sinuoso entre a realidade e a ficção podemos associar esta desagregação constante das pedras da calçada à energia latente da rainha, que outrora incorporou a terra e mantém a pele da cidade viva.

Ophiussa ex machina surge num contexto muito próprio. Compreende uma instalação de desenho, escultura e objetos encontrados, reunidos a partir da recuperação de alguns dos itinerários do livro Empedrados Artísticos de Lisboa. Durante os passeios foram recolhidas pedras soltas da calçada, captadas imagens, e outros elementos que se consideraram pertinentes para a criação de uma cartografia da memória ou arqueologia do passeio. Por outro lado, tendo em conta as relações que se estabelecem entre os objetos, as pessoas e os lugares, o recurso à escultura ou ao desenho estabelece relação com a paisagem e com os objetos do quotidiano, bem como com os lugares da cidade, através dos quais o entendimento tridimensional da cidade se complementa com a textura visual urbana.

Ricardo Barbeito, 2020.

Ophiussa ex machina is a project that is based on a newspaper article of Diário de Lisboa of 19-20s, one book about the Portuguese cobblestone (calçada) and the myth regarding the creation of the Lisboa as city and the Seven Hills described in the book.

The Lenda da Fundação de Lisboa, included in n’As Lendas da Nossa Terra, by Gentil Marques, narrates the story of the Ulysses' arrival at the place where the city of Lisbon is now erected. Myths say that this territory was a land of serpents, impenetrable and inhospitable for unexpected outsiders ruled by a mythological being half a serpent and half a woman. Ofiúsa was her name, the same name as the Portuguese territory was known in Ancient Greece.
When the sailor arrived and wanted to settle down, he found it necessary to persuade the Queen to accept his proposal and promised her prosperity and eternal flourishing.
The Queen let herself be seduced by Ulysses and with him founded Ulyssia the most beautiful city in the world. After some time the sailor decided to leave in secret and condemned the Queen with the greatest of her sorrows when she realised that Ulysses had fled. Motivated by his betrayal, she tries to reach him without success and in despair, anger and sorrow she leaves behind the trail of the wobbling and swirling movement of her body. The Queen of the serpents exhausted and abandoned ends up surrendered to grief, permanently leaving her imprints in the landscape of Lisbon in the Seven Hills.
Each time we wander around the city we are continuously finding out details that allow us to imagine the dynamics that there is between what Lisboa can represent and what it really is, or it closes in on itself, regardless of us being local or foreign inhabitants.

Pornography was the title of the article that could be read on the first page of the newspaper Diário de Lisboa of April 30, 1921. Joaquim Manso (director, owner and editor of the newspaper) presents us with a series of reflections, opinions and judgments on the modern daily life of the city and the condition of the literature of the period. The writer and essayist uses metaphors and a very sophisticated literary language, revealing us a Lisboa "that becomes so sensual with a fiery fever that it seems as if the stones on the pavement are flaming”.

At the book Empedrados Artísticos de Lisboa, by Eduardo Martins Bairrada we can find a series of routes about The Portuguese Cobblestone (calçada) in the city. The publication contextualises and provides some background on the history of the cobblestone but also the gathering of drawings and elements required for the creation of the motifs that makes these "embroideries public roads ". " Could it be that there was or still is today indifference from the person who lives in Lisboa for the carpets of its streets and squares (...) ?" is the question that is raised at the beginning of the book. It is impossible to be indifferent to the variety of drawings and patterns we can find on the cobblestone (calçada) when we are looking at the pavement we step into in Lisboa. When walking through the city it is very common to find loose pebbles, parts of cobblestone (calçada) that are detached and or deformed surfaces. Slopes or humps, caused by the lowering of the pavement triggered by the growth of tree roots or other natural or imaginary events. In a game of twisted reality and fiction we can associate this continuous dismembering of the cobblestones (calçada) with the surging essence of the Queen, who once had embedded the land and keeps the skin of the city vivid.

Ophiussa ex machina emerges in a very specific context. It includes an installation of drawings, sculptures and items that have been found, compiled from the recuperation of some of the routes in the book Empedrados Artísticos de Lisboa.
Throughout the walks loose pebbles were collected from the cobblestone (calçada), images were captured and other elements that were considered relevant for the creation of a cartography of the memories and or archaeology of the walks.
At the same time, taking into account the relationships that are established between objects, people and places the use of sculpture and or drawings establishes a relationship with the scenery and with the everyday objects, but also with the places of the city for which the three-dimensional comprehension is complemented by the visual structure of the city.